Transcendência
Estamos próximos demais do jogo, encarnamos todas as suas facetas e possibilidades, conhecemos todos os seus percursos e possibilidades, iluminamos bem os caminhos, mas esquecemos, simplesmente não nos vem mais a cabeça as possibilidades alem do que conseguimos visualizar.
Não nos ensinaram que aquele jogo é apenas mais uma possibilidade, não nos disseram que o vemos no espelho de nossa existência muda, esta sempre mudando, e que estamos muito alem do nosso trabalho, ações e de tudo que manifestamos, que podemos ser tudo isso e muito mais, ao mesmo tempo que não há necessidade de ser nada disso, não é necessário falar, pensar, agir ou representar, mas mesmo assim podemos manifestar cada uma dessas facetas livremente, transitando por cada um desses eventos.
Estamos alem, alem de cada coisa que enxergamos ou sentimos de qualquer forma, alem de qualquer movimento ou manifestação que um dia esteve envolvido, alem de qualquer jogo, de qualquer regra, trabalho ou identidade que um dia tenha direcionado.
Estamos alem de certo e errado, vida e morte, iluminação ou ilusão. Tudo isso passa, você continua, e visualize ou não, perceba, lembre, esqueça, você sempre esteve alem disso. Nesse exato momento você pode mudar tudo, de ponta cabeça ou de qualquer forma ou qualquer direção, sim você pode, sempre pôde e sempre vai poder. Sempre vai poder. Todos podem.
Todos os caminhos são igualmente válidos, vem e voltam ao mesmo lugar.
Sem uma verdadeira lógica ou coerência, nunca houve necessidade.
Transcenda.
O Primeiro Passo
Desde pequenos fomos treinados apenas a pensar, não o livre pensar, nos ensinaram que inteligência é pensar de certo modo, existem modos certos de pensar, o correto nos foi ensinado como pré-existente, o caminho é único. O teste é de múltipla escolha, mas apenas uma delas esta certa.
Fomos condicionados a calculadoras, dados entram e solução sai, tem de sair e tem de estar certo, não pode ser meio certo, o controle é obrigatório e a felicidade não é uma dádiva, na verdade a felicidade nunca foi desse mundo segundo alguns. A Felicidade esta no futuro onde algo será alcançado, aliás, você já sabe, algo tem de ser alcançado, algo tem de ser feito, mas claro, algo certo e feito da maneira certa.
A felicidade é uma cenoura, esta sempre à frente, você a terá quando você chegar lá, se chegar e se chegar direito, caso contrario não a merecera! Na verdade mesmo suprindo todas as condições só poderá dar uma lambida nela, e isso se for rápido! Se piscar ela já se foi novamente, você não foi ágil o bastante, na verdade não é bom o bastante nem para ser feliz (seu medíocre).
E o melhor de tudo isso é que mesmo quando percebemos essa zona já estamos fodidos, condicionados a essa merda, presos nessa cadeia, nesse ciclo infernal correndo atrás do próprio rabo. Fomos condenados a uma formação infernal, condicionados a uma vida de infelicidades e inflexibilidade sem consciência dos problemas que isso poderia representar! Mudar é impossível agora, ou no mínimo difícil demais para um ser humano normal! O mundo vai acabar antes de conseguirmos superar tudo isso, desabara em uma autodestruição sistemática...
(...)
Percebe? Tudo isso acima é uma mente obscura cheia de traumas e problemas olhando, talvez pela primeira vez, para si mesma. Ela percebe seus limites, impotências e algumas origens do que a levou a tudo isso, atingindo o que alguns poderiam chamar de primeiro grau de iluminação, mas ainda assim ela ainda é a mesma mente obscura cheia de traumas e problemas sem saber o que fazer, o que é um problema já que foi treinada a sempre ter que fazer algo. Consciência por si só não resolve nada.
Apenas dizer para si mesmo de modo racional "você não precisa, não é obrigado a fazer nada, se não há certo ou errado tudo é da lei" normalmente não é o bastante. A mente ainda vai se fechar em encruzilhadas como "mas matar é errado", sem entender o verdadeiro sentido da transcendência desse ponto. Mesmo que racionalize e faça disso um mantra diariamente repetido talvez não sirva de nada.
Nessas horas é que a maioria das tradições espiritualistas não dualistas ainda vem com ensinamentos de ações certas, corretas e lúcidas, pois a mente que já esta em certo colapso existencial ainda precisa de instruções e coisas corretas a serem feitas. Pode funcionar, mas isso é ainda dar pequenas doses a um viciado na esperança que isso se resolva apenas com o tempo enquanto faz terapias de longo prazo, afinal você ainda tem infinitas reencarnações para se curar completamente. Claro, existe o caminho rápido, você pode se tornar um monge, simplesmente fugir do mundo e meditar 24 horas por dia! Eu disse 24 horas por dia, o que inclui a noite em sonhos lúcidos. Medite, medite e medite.
Nada disso é errado, mas do mesmo modo como esse não é o único jeito de se tratar fortes vícios, esse também não é o único meio de se trilhar um caminho intermediário ao não dualismo até atingir o samadhi, mahamudra, iluminação completa ou simplesmente a felicidade plena. Só por que alguém ou um grupo conseguiu atingir algo de determinado modo não quer dizer que seja o único, melhor e nem o mais indicado genericamente para a maior parte da população mundial atual. Sempre existe uma maneira mais bizarra de se atingir alguma coisa e ainda conseguir resultados ainda mais interessantes, afinal as possibilidades são incessantes.
Se o objetivo, pelo menos inicialmente, é sair desse ciclo ‘infernal’ sendo que você não consegue transcender as necessidades, ser feliz por simplesmente existir e fazer o que quer livremente, você pode ao menos se mover de maneira diferente! Quebre o ciclo ao menos pela mudança de direção, de a cara a tapa, arrisque coisas novas! Afinal não adianta querer resultados diferentes fazendo a mesma coisa! É simples assim, esse é o primeiro passo.
Entre Crianças, Sábios e Loucos
Três seres aparentemente tão diferentes compartilham pelo menos de uma coisa em comum: estão fora do jogo. Pelo menos fora do daquele padrão, o medíocre do nosso dia a dia, o normal. Um ainda não tem jogo, outro faz seus próprios jogos e outro não tem nem vai ter um para si, pelo menos não que dure muito.
Crianças são puras, pura liberdade, potencial germinante, o jogo que vier ela joga de bom grado, e quanto menos você as obriga a isso, mais elas correm atrás. Elas fazem o que querem, mas não julgam o que vem, ela simplesmente fazem, sem preconceitos ou obstrução o que entra sai, e sai melhorado, com mais criatividade e paixão. Tudo que a criança faz é vivo, o riso e o choro têm a mesma potencia sincera, assim como sua capacidade de seguir e se deixar levar.
Loucos estão fora do jogo, pelo menos do nosso joguinho padrão, pois simplesmente não faz sentido para eles, ou talvez nem mesmo saibam dele, talvez estejam presos a qualquer outro jogo, ou simplesmente não joguem jogo algum. Talvez estejam continuamente criando ou pegando jogos por ai, talvez tenham alguma disfunção física/cerebral, talvez tenham plena consciência de tudo isso, até mais que qualquer lúcido por ai, acabando por um dia se tornar o próximo grande sábio, louco por saber que nada sabe e a coerência ser a maior de todas as piadas, ou talvez não. Do louco não se espera nada, e poucos sabem a bênção que isso pode ser, alguns talvez estejam loucos pelo puro prazer desse estado.
Já os sábios estão alem! Seja pela experiência da prática ou por algum processo de iluminação, eles estão além da normalidade, o medíocre já não lhe é suficiente e agora fazem o seu próprio jogo! Nem todos os sábios realmente transcenderam, muitos apenas tem uma visão mais ampla do todo, viajados e experientes, sabem dos macetes, conhecem suas falhas e podem te falar o que deveria ser feito. Melhoram aquilo que já existe.
Alguns sábios se desconectam completamente da magia do um jogo para todos jogarem, ganham com isso boa autonomia para criar além do que se conhece, mas nem sempre vão muito longe disso, muitas vezes eles observam de cima forjando seu próprio um anel, aquele que será o novo jogo ultimo para todos jogarem. Pelo bem ou pelo mau assim continua o grande ciclo, o jogo recomeça.
Há também uma transcendência perigosa, onde o limiar entre o louco e o sábio quase se perde e não existe mais nenhum jogo, pelo menos não um ultimo, claro que isso não é uma regra, se é que há realmente alguma regra entre os sábios, pois há quem diga que o verdadeiro sábio esta além de todas elas. Alguns têm até por objetivo não ter regras ou jogos, voltar ao estado original infantil e germinativo, até quem sabe no caminho liberar mais algumas almas da auto-enganação. Mas afinal, não seria esse apenas mais um jogo? E qual o problema se for?
Nosso potencial de aprender, forjar ou transitar entre os jogos, mesmo que inerente, se vai no momento que ele se torna real demais, junto com o jogo vem o jogador e nesse momento ganhamos uma identidade, claramente anexada de direitos e deveres, afinal todos sabem, eu sou o homem que tem de manter a casa, o profissional sempre atualizado com as melhores praticas, o cara legal e interessante da turma que só fala coisas engraçadas, e como não poderia deixar de ser, o amante perfeito que todas as mulheres sempre sonharam, e mesmo que eu não faça metade disso, ao menos tenho de sustentar a pose e manter o que me resta de controle e dignidade! Veja bem, eu não sou louco, sei que não sou sábio, e já não sou mais criança faz tempo. Certo?
Livre Ação no Mundo
Há quem diga que os únicos seres realmente livres são os loucos, deles nada se espera, tudo é possível e julgar suas ações é considerado perda de tempo, nós os perdoamos, pois claro, tolos, não sabem o que fazem. Talvez os mais próximos disso sejam os palhaços, além da liberdade eles têm sua licença poética, que lhes da à permissão para serem espontâneos sem serem julgados por isso, pelo menos até que tirem suas mascaras e voltem para a vida real.
Muito se fala em diversas tradições sobre ações lúcidas ou corretas sobre o mundo, porem esse tipo de ação ainda está a um nível abaixo ao do palhaço ou do louco no que se diz respeito à liberdade, partindo de princípios cognitivos dualistas, dividindo certo e errado, continuando nossa cíclica luta pela perfeição.
É muito lindo lutar pelo que se acredita, o próprio extremismo ideológico não é um problema em si mesmo, não há nada de errado nisso, é a sua visão, são os seus meios e suas crenças buscando construir aquilo que você acredita, porem nada disso invalida todas as outras visões, ações e pontos de vista, eles não são errados e nem menos corretos que os seus.
Toda ação, assim como todo e qualquer ser é, por única essência, livre. Essa perda é a primeira e a maior das ilusões, é o cumulo da aplicação da liberdade, perdendo-se em si mesma, tirando de si o que nunca vai embora. E se traduzirmos essa ilusão em palavras, poderíamos facilmente começar por uma: necessidade.
Não, você não precisa fazer nada, essa justificativa é sua, você faz porque quer! Preferia estar fazendo outra coisa em vez disso? Você decidiu abrir mão de alguma coisa que gosta em troca de algo que considera maior, mas isso não é (assim como nada nunca foi) realmente necessário, você decidiu por isso! Não esta feliz com isso, então reveja suas prioridades, o que você mais quer?
Te disseram a vida inteira as coisas que você precisa fazer, desde inicio listaram suas prioridades e desejos válidos, outros te disseram até que você tem de eliminar o desejo, pois é errado! Algum dia já pensou no que você realmente gostaria de fazer? Quando sua mãe não estava mais ao seu lado ou a altura do seu ego você encontrou livros, listas, manuais e hoje em dia até blogs sobre como viver a sua vida. E claro, ame Deus sobre todas as coisas, não se esqueça disso.
E hoje em dia quando colocam duas opções diferentes na sua frente, para inicio de conversa você realmente acredita que há apenas essas duas opções, e a partir dai vem o seguinte: ou você tem uma máxima que te dará certeza absoluta sobre o que fazer, e assim estará tudo certo e resolvido para você e todo o resto esta errado, ou terá uma crise existencial para tomar uma simples decisão e mesmo assim passará o resto da vida perguntando se não fez a coisa errada.
Assim ou você tem muito culhão, coragem e falta de vergonha na cara para fazer o que acredita independente de tudo dar certo ou errado, o que é um ótimo começo, ou você simplesmente transcende esse ponto e entende que a verdade nunca existiu, que apesar de suas ações nunca deixarem de ter consequências, nenhuma delas será realmente boa ou má.
Se existe uma verdadeira utopia nesse mundo é execução completa e definitiva do controle, e a necessidade do controle é a mãe maior de todas as frustrações, pois se controla no máximo aquilo que já foi criado, mas a criação é infinita e incessante, ela meus amigos, ela não tem controle, é o caos, aceite, ame, rejeite ou reverencie.
Mas como aceitar o caos e largar mão do controle totalitário se sua felicidade depende do sucesso, a partir de um único ponto de vista, de suas ações? Tem outra pergunta que talvez seja mais útil então: o que é felicidade? Porem eu ainda ouso fazer outra pergunta: É realmente necessário ser feliz?
Bla bla bla bla bla... Ainda não entendeu? Princípios cognitivos não têm fim, eles são pura criação! Não vai te levar a uma real felicidade independente do que entenda por isso. Triste isso? Mais dualismo! Para, para. Aceita, aceita a vida, aceita o erro, para que continuar lutando se sempre terá outro inimigo para lutar?
Quando você realmente relaxar e a tensão não tiver mais para onde ir, sabe para o que vai acontecer? Você vai gozaaar! Vai gozar na cara do mundo! Vai gozar de cada merda e de cada decisão tomada nessa porra de vida, pois nada mais vai ter sentido, a coerência será a própria piada e só vai existir o gozo.
Então meu amigo, goze! Quando você acabar de gozar a gente continua a conversa, pelo menos você não vai estar mais levando tudo tão a sério e o assunto vai fluir mais facilmente.
O Pecado Original
Para se haver traição é preciso um tratado, para se haver errado é preciso existir o certo, para se existir a resolução é preciso existir um problema. Passamos a vida buscando fazer o certo, fugindo de traições e resolvendo todos os problemas que aparecem em nossa frente. E quem criou tudo isso?
Quando se acorda um tratado a traição esta inerente, quando se estabelece o certo o errado se assenta a outra ponta sorrindo, e como existiriam problemas sem antes definirem o certo o qual não estamos seguido ou o aquele tratado que acabamos de quebrar?
Ao criarmos novas soluções surgem novos problemas, exatamente ao mesmo tempo novas possibilidades surgem em todas as direções, totalmente fora de seu controle. A resolução será no máximo temporária e depois tudo dará errado, novamente.
E o jogo continuara, ciclicamente, do pecado a divindade, do santo ao pecador, do certo ao errado, da vida até a morte. E a cada geração o homem morre afogado em seus conceitos cognitivos de ideais de certo e errado que nunca serão plenamente implementados.
A humanidade desaparecerá antes de resolver todas as suas questões, buscando a resposta na mesma fonte genitora daquilo que odeia, esperando o profeta que vira com a ultima máxima apocalíptica e a respostas corretas. E seus problemas Ironicamente nunca existiram, estais presos em seu próprio quebra cabeça, maior e mais complexo a cada ciclo existencial.
A única maneira real de não perder é não ganhar, quando se esta além do jogo o resultado não importa, ao se entregar a trama de possibilidades todos os resultados são válidos, quem ganhou ou perdeu é o mesmo ser, o resultado é um intenso orgasmo existencial.
Seu único carcereiro é você mesmo, sua própria criação, livre por única essência, inclusive para prender e enganar a si próprio. Tu és amor, tu és a própria criação, liberdade indiscriminada, incessante, pulsante, fora de controle, caótico, mas infinitamente livre e divino.
Do Alento ao Samadhi
Comala venha comala,
Alento venha venha,
Quando o ka te chama a dançar,
Um ka-tet novo assim se forma,
Comala venha alento,
O Samadhi dançaremos.
O divino tem muitos caminhos, inteligências infinitas sendo criadas a todo o momento. Seus alentos às vezes podem ser sutis e os sentimos apenas como uma brisa, mas que ao nos tocar mudamos de rumo quase sem perceber, outras vezes porem, o alento passa arrancando telhados e se torna perceptível, mas resistir será inútil. Do que adianta nadar contra correnteza se ela te empurra mais do que consegue aguentar, por que não ao contrario, aproveitar essa força para atingir novos e melhores locais, descobrindo novas possibilidades.
Esse alento que nos arrasta pelos calcanhares pode ser considerado negativo por muitos, mas não deixa de ser consequência de mais uma das inteligências do divino, talvez muito mais próximas e favoráveis de ti do que você imagina. Pode ser conseqüência direta de suas próprias potências inconscientes, agindo avassaladoramente a favor de ti mesmo, pois em algum momento se atingiu uma comunhão interna e externa de que esse será o melhor caminho para todos.
O alento nunca teve nada de bom ou ruim em si mesmo, é o que é como todas as outras coisas, e ao pararmos de perder tempo julgando o que esta acontecendo, podemos sentir tudo a nossa volta verdadeiramente em cada detalhe. Não apenas sentir, mas experimentar em gozo em todas as coisas e ser grato por isso, por tudo e por todos, pelo divino em ti e no próximo.
Nosso olhar não é imparcial, é obstrutivo, e se conseguirmos parar de construir com o olhar, podemos sentir o mundo como ele realmente é, ou esta, nesse momento, livre da nossa autoritária e desgovernada mente, maquina de continua criação, que manipula indiscriminadamente o que vê, construindo mais do que enxergando e confundindo os dois como a mesma coisa.
Sempre estivemos em um alento, e nunca deixaremos de estar, a não ser talvez pelos raros momentos plenamente meditativos, quando as barreiras de tempo e espaço (meras ilusões) são transcendidas. Mas agora, simplesmente aceita essa obra divina, se deixe levar nessa nova direção que te toma, multiplique ainda mais essa força, potencialize o todo e a si próprio! Agradeça, abençoe, ame.